Sufi, O quê é a Tradição?

A Tradição Sufi:  O quê é?

Trago algumas informações sobre a Tradição Sufi da qual faço parte há trinta anos, como aluna. Meu primeiro mestre, Omar Ali Shah, vivia em Londres com sua familia, mulher e filhos e desenvolveu seu trabalho à partir daí, e sua origem era afgã.

São mestres da Tradição Sufi, Rumi, Hafiz, Al Gazali, Idries Shah (irmão de Omar), entre muitos mestres.

A nossa Tárika (ou Escola) está presente em diversos Países da Europa e Américas.

Impossível trazer as informações que esgotem e que esclareçam em nível profundo o que é a Tradição Sufi em poucas páginas. Mas será possível abrir o caminho para o primeiro contato para aquelas pessoas que nunca ouviram falar do Sufismo ou que ouviram, eu diria,que como uma rosa sentiram seu aroma suave e profundo, mas que não a tiveram ante seus olhos.

As palavras de Omar Ali Shah às quais busquei para trazer alguns conceitos sobre o sufismo,estão publicados em portugues e são o resumo de seus encontros com seus alunos em um de seus livros O Caminho do Buscador” das Edições Dervish que foi publicado em 1990. Ele nos diz:

Aplicação de técnicas e da teoria

“A Tradição Sufi não conhece fronteiras. É uma tradição que existiu nos corações e mentes dos homens desde os primórdios da civilização oriental.  Devido ao seu embasamento oriental, alguns a consideram como “apenas mais um culto do Oriente”.

O Sufismo não é um culto nem uma religião: é uma filosofia prática baseada em técnicas experimentadas e comprovadas.

É, como a história mostrou, facilmente assimilado pela cultura ocidental, pois suas verdades básicas são universalmente reconhecidas e apenas sua técnica  é diferente. Mas será que  esta diferença representa uma desvantagem? A resposta é não, pois essas técnicas tal como são usadas pelos mestres Sufi no Ocidente, não requerem atividades incompatíveis com a vida do Ocidente.

Para trabalhar na Tradição Sufi no Ocidente, a pessoas deve assumir um compromisso consigo mesma; assumir a responsabilidade por seus pensamentos e ações em modo muito mais profundo do que o que lhe foi ensinado. Isto não significa que deve rejeitar dou desprezar valores e atitudes ocidentais, muitos dos quais são válidos e úteis. Significa que un aprendiz do caminho sufi deve desenvolver e satisfazer-se com outros, novos termos de referência, através dos quais poderá avaliar a si mesmo, aos outros e, lentamente, sua consciência de Deus.

Os sufis costumam dizer que um viajante do caminho deve “estar no mundo mas sem ser do mundo”. Neste século, a “estranheza ao mundo”, está fora de lugar e fora de compasso, e aqueles fora do mundo acabam fora do emprego também”.

“…Mas uma das coisas é que num primeiro estágio de contato com a Tradição, naturalmente há questões que se colocam e que vêm à tona. Algumas são bastante semelhantes ou têm a mesma base, algumas servem apenas para esclarecer alguns pontos. Como não há um curso ou programa fixo de estudos, obviamente há textos que utilizamos; e no decorrer do estudo são indicados certos textos para leitura ou utilização.”

Entretanto, parte do Ensinamento é e precisa ser de natureza pessoal, no sentido de que certos textos, atividades ou exercícios são indicados às pessoas enquanto indivíduos; pois é uma função necessária da Tradição que as características, problemas, energias e capacidades individuais sejam levados em conta no contexto da Tradição e que esteja ao alcance de sua capacidade utilizá-los.

Perguntas e Respostas

“Você deve lembrar que, na Tradição, todo mundo começou em algum lugar. Tudo bem, algumas pessoas já nasceram dentro dela, outras têm ligações familiares com ela, outras ouviram falar dela, e muitas leram coisas sobre a Tradição, o que, dependendo do modo como a interpretam ou como dela tomaram conhecimento , a chamaram por todos os tipos de nomes: boa, má, estúpida, inútil, desnecessária, etc.

“Mas a Tradição é basicamente um ensinamento, cujo propósito é desenvolver as pessoas por meio de uma série de técnicas – audição, leitura, exercícios – eliminando uma porção de intelectualizações excessivas certamente desnecessárias – porque não se trata tanto de uma questão de tempo, que a pessoa diz: “Bem, agora é preciso…” ou “Nós não temos muito tempo”, ou “Devemos nos apressar…”.

Pergunta: Por que as pessoas são assim?

  1. (Agha): A resposta a esta pergunta é que as pessoas não precisam ser assim. Elas não precisam atravessar a vida confusas, aos tropeços, pois possuem a capacidade básica para se desenvolver. Existem técnicas – uma das quais é a Tradição – que foram elaboradas com muito cuidado, com muita clareza, um caminho a ser seguido”.

“Se eles não estiverem preparados para se motivarem sozinhos, algo como um interesse pessoal… Há uma coisa que se chama “auto-interesse inteligente”. Auto-interesse inteligente não é voracidade; todo mundo tem um certo grau de auto-interesse que é equilibrado. Auto-interesse inteligente significa que se está usando uma certa quantidade de inteligência para escolher coisas, para pensar e agir de uma meneira inteligente ao invés de reativa”.

“Um dos condicionamentos naturais, ou reservas que devem ser superados, é a ideia ou suspeita muito comum de uma situação de culto. Pois bem, os cultos são em si, bons, maus, indiferentes ou prejudiciais – alguns deles. Nós afirmamos enfaticamente que não somos um culto no sentido de que não há questões do tipo promessa – ameaça.”

“Este Ensinamento é uma técnica de desenvolvimento e exige disciplina – auto – disciplina e tenacidade, e uma razoável quantidade de sólido bom senso. Também é preciso desvincular o Ensinamento do “paranormal”, pois é necessário, especialmente nos dias de  hoje, com todos esses cultos misteriosos, fantasmagóricos, sobrenaturais, adivinhatórios, etc. A nossa é uma técnica muito precisa, que se manifesta de formas variadas, trata-se por exemplo, de quando você faz ou lê alguma coisa e repentinamente diz: “Meu Deus, isso soa familiar”, ou “Eu entendi isso”, ou como dizem: “De repente tudo tornou-se perfeitamente claro”. Bem, na verdade não tudo, mas apenas uma coisa específica que poderia estar um pouco confusa ou um pouco turva antes, e que se tornou clara. E nesse ponto você pode dar o crédito ao que quer ou a quem quer que seja, mas também pode dizer a si mesmo: Fui eu quem o desvendei”.

“A pessoa deveria sempre se direcionar, em todas as atividades – na vida, na Tradição, em tudo – para cima, porque, por definição, a trajetória ascendente é mais positiva que a horizontal. Toda trajetória comporta inevitavelmente um fator de declínio, embora não descendente, porque por definição esta seria uma curva negativa. Porém se a pessoa se direcionar para cima, o fator de declínio pode ser de menor magnitude.

Espiritualidade como requisito básico

“É a espiritualidade um estado mental, um estado de ser um termo de referência, um modo de vida ou ela abrange a crença? A espiritualidade, em seu melhor, mais equilibrado e mais harmônico sentido, incorpora tudo isso. A espiritualidade apoia-se na existência de uma crença fundamental, e dessa crença fundamental deriva o uso prático de espiritualidade.”

Uma pessoa pode se sentir espiritual, pensar espiritualmente, reagir espiritualmente, sem necessariamente mostrar qualquer manifestação de espiritualidade”.

“Em algumas culturas, desenvolver a espiritualidade implica em ir morar numa caverna numa montanha e fazer coisas como rejeitar o mundo, abandonar tudo, meditar constantemente, comer quase nada ou muito pouco. Nós sustentamos que isto é incorreto, por não ser uma atitude harmônica nem equilibrada. Mesmo que rejeitar o mundo e tudo o mais satisfaça a própria pessoa, fazendo-a sentir-se mais espiritual, mais próxima de Deus, eu acho que esta atitude não está corretamente equilibrada.

Todo mundo, de alguma forma, em algum lugar, tem alguém com quem se relaciona, que se importa com eles, que gosta deles, que precisa deles. Eles têm um lugar na família, na sociedade; eles têm uma função  que podem e que deveriam desempenhar tanto quanto possível”.

“Desenvolver a espiritualidade, um conhecimento ou sentimento do próprio lugar no universo, a relação com os homens, com Deus, etc – esta é a base. Daí deriva a aplicação  prática da aprendizagem, da técnica, do desenvolvimento. É aqui que entra a Tradição, pois ela procura ensinar, instruir, tornar disponíveis os meios, as técnicas, os textos, a informação ou o que for, de forma que as pessoas possam não apenas trabalhar para aumentar a consciência da espiritualidade, mas para se tornarem realmente capazes de senti-la e de usá-la. Penso que ela pode ser melhor usada ao se tornar familiar”.

“… porque a função do professor é olhar, ver, pensar e então dizer ou fazer, provocar ou precipitar, puxar ou empurrar, estimular ou atenuar. O professor não concede a espiritualidade a uma pessoa, pois fazer isto está além de sua capacidade, da sua habilidade, de sua função, e  certamente, além da sua vontade. O que ele faz e deveria fazer é reconhecer a existência ou ausência, a força ou a debilidade da espiritualidade e ver de que maneiras a Tradição pode melhor estimular isto, e em que área”.

“A espiritualidade é avaliada,  julgada, estimulada em alguns casos refreada por quem estiver ensinando, porque é sua função medir e ver de que maneira pode ser melhor usada pela pessoa, para a pessoa e para a sociedade em geral. E quando eu falo em limitá-la, é porque ela pode se tornar mais harmônica com o todo, com o contexto global”.

Regina de Toledo
Regina de Toledo
Psicóloga Clinica – Analista reichiana Com um longo percurso de trabalho pessoal e interior. Com uma longa experiência de vida na Itália e Brasil Com diferentes experiências e projetos realizados na área de Psicologia clinica e de Prevenção de neuroses em crianças pequenas Consultora para revistas/jornais Palestrante sobre temas de Psicologia Autora de artigos para jornais Autora do livro “Diário de uma viagem entre o Céu e a tera (Eu e Bello)”